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terça-feira, agosto 31, 2004

Esmiuçado 

Quero escavacar-te, retraçar-te a fio de espada ou com um risco de bala.
Quero amar-te em cada esquina, voar contigo aos esses, "bah" gritar com despeito "quem são esses" quando alguém se aproximar.
Ser no ciúme arrogante, um qualquer idiota agarrado a ti transversalmente
Quero ter vontade triunfal, saber de cada um e cada qual, quem se promete quem se nega, quem comete suicidio, ou um pecado saudável.
Quero tremer no pavor de te perder, sonhar connosco e em vão temer, acordar a baloiçar na áspera espera e vertiginosamente atirar-me a ti e em ti.
Quero talvez por isso ser a paz e a alma ao mesmo tempo, morder cada onda do mar na calma de um momento único,
soletrar o teu nome ao vento e recebe-lo de volta em infinitas combinações e depois misturar o teu sabor com tudo e todos,
para riscar em cada folha o que me der e vier e em sôfrega reunião juntar-me a ti nessa aventura mesmo que seja torpe, disforme e desencontrada.
Não!! tem de ser suada, quero-te em cada hora renegada pelo tempo e em cada canto esquecido, enegrecido e longinquo.
Quero-te em silêncio, longe de todos e perto de alguns, aos gritos, quero-te enfim como se o dia superasse o encanto de cada um de nós e tivéssemos de viver depressa para o igualar.
Quero aglutinar em ti todas as vertigens, como quando arriscas a própria felicidade
Quero-te e isso deveria bastar.
Quero partir-te em duas, dar-te um beijo e dançar contigo nas asas do desejo
Quero morder-te, fazer-te gritar, fazer-te cair e deixar-te sufocar no que sinto.
Quero que sofras o que cada um sofre quando te perde, que vejas o que a vida nos atira à cara.
Quero então metade, quero-te em postas, destroçadamente refeitas, por alguém sem o mínimo jeito.
Quero dar-te mimo, ser o teu ego e rodear-te de mim e de todas as coisas, perenes e outras,
Quero por alto possuir-te por um instante práticamente nosso e no fim dizer-te que foi bom, quero repetir e dizer-te que serás a única e sentir no teu sorriso confidente
e confiante, a eterna ilusão de sermos felizes.
Já te disse que te rabiscava o corpo todo? não te usava, passava por ti, dilacerava algo em ti para dizer que lá estive.
Quando te vir, numa qualquer prisão dos sentidos e me torturar e te sufocar no meu querer, fuzilo e erradico o que penso, desisto disso,
mordendo-me por dentro e nessa altura vais ver nos meus olhos uma chama meio extinta em que vislumbras escrito em brasa um "quero-te" que passa repetido como num ecrã de plasma.
E por dentro digo o teu nome até à exaustão, se o escrevesse sería em letras garrafais, pintadas em tons escuros para sobressairem entre tudo.
Quero vislumbrar em ti o que de mais íntimo se afigura, o que nos persegue como labaredas, o que não aconteceu
Quero beber em ti o vinho que nos levou a isto, o eterno confidente de ti e de todos os amores
Vou arrastar até ti cada medo do infinito, cada mensagem de um amor aflito
Quero em vão... talvez senão um não! rotundo, dito devagar, como os que se dizem no amor e no ódio.
Quero dizer primeiro, sem soltar em ti a aspereza do que não sentes por mim, o que sinto e quero vislumbrar um sim...

quarta-feira, agosto 25, 2004

De Alberto Caeiro - Se Eu Pudesse 

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro

terça-feira, agosto 24, 2004

Diário das Flores 

Nem palavras nem esquinas, nada te corta
bela Isola
nada te compromete já nestes dias
e quando os divãs da tua vida se fecharem
com os magros cobertores
enegrecidos como antigos estertores
recordas-te do sol que em cada dia entrava por ti
que te fazia baloiçar pelos gritos infantis e matinais
pelos cantos dos cagarros meio iguais
Porque hoje só já há hortas mortificadas
as pessoas são poucas e desencontradas
os corpos já submissos pelo peso das enxadas
e a natureza um dia vencida, que agora ataca de novo
sobe as ruas, tapa as casas
Antes em cada homem um predador
hoje um farrapo de si mesmo
abandonaram-te, pisaram e largaram-te
como antes rapariga
e agora já vencida
as ervas retomaram o caminho
espicaçadas pelo vento que lá reina
Nem mãos ou outros gritos
nem os homens aflitos
já meia duzia pasta em rebanho intercalado
Não há crianças, nem fé nem danças
há o sol, a água e o movimento perpétuo da vida
da vida mas mais silenciosa
da púrpura sanguinidade rosa
de cada predador que te deixou
que te amou violou mas não agradeceu
de cada respeituosa fé que lá ficou
nas mil e uma igrejas
nas casas já deitadas
no ritmo pardacento das tetricas miragens
de 4 mil almas já velhas
partidas como as vinte mil telhas
aleijadas, retornadas
a um passado infimamente mais feliz
e a graça é que foi por um triz
que os outros descobriram a terra nova
as soluções
e lá deixaram nesta ilha os corações
também empedrenidos
como os caminhos que se não fizeram sozinhos
mas taparam-se sem medo,
e algum dia serão relembrados em cálido segredo
eles e os rumores, como os velhos amores
nas Flores

sexta-feira, agosto 20, 2004

Aftersun 

As aparências que gastam
que nos prendem
unem os dois, cambaleando
num abraço contínuo
como cada entrega na "fogueira das paixões"
e como mil febres fatais em que ardes
que te enchem de sonhos estéreis
As aparências que viajam
pelas promessas que escondem
no principio não há mais nada a fazer
no chorar é-se feliz
no sonhar perde-se a paz
não se tem frio nem medo do que não se conhece
e compõe-se em cada verso um sentimento
As aparências que nos trazem
a vida e a companhia
a plenitude vazia
a paixão que depois nos corroi
o amor tão quente que até dói
vês o coração que se deixa esmagar
por não se querer entregar
As aparências que rasgam
no corpo de cada um, dócil ou voraz
a vontade de te apoderares
entregue ao corropio dos dias
do odor forte do que lhe disseste
mas que agora descansa entre os dois
como uma mentira perdida
As aparências que matam
e não há nada que as faça parar
no sonho cândido, na tal plenitude
na alma entorpecida
por ti, por cada beijo e cada vontade
só nos fazem hoje rir
e voltar a cair e tropeçar
As aparências que trazem
as noites que deslizam entre os dois
tu sentas-te
e dizes entre um esgar qualquer, de alguma coisa:
"se te toco compões-te, se te evito escorregas
mas de qualquer maneira entrega-te
entre as chamas do que as aparências consomem"

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