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sexta-feira, julho 30, 2004

Vou de fúrias 

Sim de fúrias. No Verão sabem mesmo bem. De fúrias mas manso porque vou para os Açores onde não está tão can´t ou como quem diz até está mais frio, mas nem por isso vou andar menos new ou como quem diz não vou largar os calções. Sim concordo é uma silly season, só dizemos disparates, uma sile sison... Hei de dizer nalguma praia de areia escura "bela fema" enquanto uma reluzente donzela pulula até às águas do atlântico de nóconas em riste (soa pessimamente). Omessa picheno! São expressões desta bela terra perdida no meio do mar, não mais do que isso. Éme, esse pichenes ma que tivérim desarides! E aviso já que se algum Naião ou Zabela se meter comigo vai apanhá. Peloei! Se não estiverem a perceber gritem alto: corisques mal'amanhádes que nã expliquim náda!

quarta-feira, julho 28, 2004

Em cada batalha que ganhas 

Talvez os sonhos te caibam e te atraiam, se as derrotas permitirem
talvez em cada esquina deles encontres uma só perdição
talvez sim ou talvez não
mas em cada recanto sabes que estão
como os dois juntos
que te alucinam
que te comprometem como esses sonhos que encontras
em mil vezes revirados em cada cama
em outras tantas encostados contra ti mesma
será que os confrontas acordada...

Se permitirem as derrotas, consagras o teu esforço
agarrado em cada momento de inércia
como pormenores esquecidos num qualquer recanto
como provas de cada bataha ganha e de outras tantas perdidas
de cada imagem do engenho com que as venceste
como os dois juntos
que te inebriam
Tomada pelo cansaço da vida incessante
que parece não acabar nunca
talvez tenhas a razão, talvez a tenhas

O que sei é que por ti foram roubados os olhos
as bocas essas perderam-se em outros fados
mas a queda fez-se fria, rápida sem agonia
Prendeste as forças, registaste o ocaso
Assinalaste o exito
e transmitiste a dor, o corpo e o calor
em sedimentos exactos, sempre iguais
ah mas em cada momento desses, deitaste-te de costas
perdida pelo tempo que encontras no meio de nós
e nem por isso te rendeste, foi uma espécie de gesto de paz

Talvez por isso os sonhos te abandonem
as árvores se fechem e todos se escondam
mas as curvas da vida trazem-te de volta os sentidos
menos fracos, oprimidos, mais vivos e reflexos
uns encantados outros nem tanto
Acordas, reprimes, tentas novamente
E num deleite quente, entre a névoa
Entregas-te ao sono novamente,
aos sonhos,
se as derrotas permitirem

  

 



terça-feira, julho 27, 2004

Tom Waits - Temptation 

Rusted brandy in a diamond glass
everything is made from dreams
time is made from honey slow and sweet
only the fools know what it means
temptation, temptation, temptation
oh, temptation, temptation, I can't resist
I know that she is made of smoke
but I've lost my way
she knows that I am broke
so that I must play
temptation, temptation, temptation
oh, woah, temptation, temptation, I can resist
Dutch pink and Italian blue
she is there waiting for you
my will his disappeared
now my confusion's oh so clear
temptation, temptation, temptation
woah, woah, temptation, temptation
I can't resist

Prove uma perto de si...


segunda-feira, julho 26, 2004

Obrigado Mary Quant 

Mary Quant disse um dia "O bom gosto é morte e a vulgaridade é vida. As pessoas chamam vulgares às coisas que lhes parecem novas. Quando as coisas já são conhecidas, quando envelheceram, já parecem de bom gosto, por isso adoro a vulgaridade e odeio o bom gosto". Eu caio no mesmo anacronismo de todos, passado algum tempo também chamo bom gosto à vulgaridade. Tudo isto começou com uma "vulgar" Mini Saia.  Vulgar... mas de um enorme bom gosto.




terça-feira, julho 20, 2004

Bethania canta Gonzaguinha nuns headphones na Fnac do Chiado, passo a publicidade... 

Chega de tentar dissimular
e disfarçar e esconder
o que não dá mais prá ocultar
e eu não posso mais calar
já que o brilho desse olhar
foi traido reentregou o que você tentou conter
o que você não quis desabafar e me cortou
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
e se perder e se achar e tudo isso que é viver
eu quero mais é me abrir
e que essa vida entre assim como se fosse o sol
disvirginando a madrugada
quero sentir a dor dessa manhã
Nascendo, rompendo, rasgando
tomando meu corpo e então eu
chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando
feito louco, alucinado e criança
sentindo o meu amor se derramando
não dá mais prá segurar
explode coração.


sexta-feira, julho 16, 2004

Sexta, duas da tarde na FNAC do Chiado a ouvir Elis Regina, um mimo. 

 

Tatuagem   
 
Chico Buarque - Ruy Guerra

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é prá te dar coragem prá seguir viagem
quando a noite vem
E também prá me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega, mas não lava
Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo me alucina, salta e te ilumina
quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço
Quero pesar feito cruz nas tuas costas 
Que te retalha em postas, mas no fundo gostas
quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva
Corações de mãe, arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo mas não sentes

quinta-feira, julho 15, 2004

Uma pedrada no charco 

Eu acho que um dia uma paranoia invadiu-te meu caro, sufocada por ventos ferozes do passado, lembranças de pratos partidos e cascas de nozes, um monte de esquemas destes assentes em pequenos acidentes idiotas, em coisas absortas e já mortas a que quiseste dar vida passando por semi Deus. No meio de imensas coisas que te preocupavam no momento, ouvias-te com parvoíces gélidas e fracas, sem qualquer sentido, mesquinhas, pequenas! O caminho que ficava cada vez mais curto entre os dois, entre esses dois diría eu, o incauto viajante dos dias e o próprio absurdo, tornava-os torpes e inaptos, perdidos para a glória e de quem não há já qualquer memória, farrapos! Esqueceram-se deles o vento, a humanidade e até a própria irmandade de cada um. De todos esses pensamentos confusos ficaram alguns e os poucos que sobreviveram, organizaram-se numa hierarquia difusa, e gritaram dentro de ti já depois da grande tempestade:
"abram alas, a eterna dúvida é agora a tua grande imperadora, a Nossa Senhora, que governa as pedras e os lagartos", então a medo, não perdeste tempo e procuraste um enorme bloco de granito e encontraste finalmente um, novo, polido, luzidio, sem liquenes ou musgo e vestiste-te de réptil porque tinhas de entrar a preceito. Veio a iniciação, mas o peso traiu-te imediatamente, viste-te seguro pela pedra e esmagado por ela, sem respirar, arfavas em tentativas frustradas de soltar a dor e confessar o amor. Não dava, não deu.
Numa das vezes que fugias para debaixo da pedra descobriste que se te escondes, ainda que réptil, encontras um mundo de fantasia, viajaste então uns milhares de kilometros para a pedra mais cómoda. Numa dessas viagens, ao segundo dia já dizias em tom de piada "Marluce você é executiva?", desbragada ela corria pela areia e prostrava-se sem sequer ajoelhar. Não o era, mas sim executante, do teu destino, das tuas preocupações e dos teus medos. Talvez executante de uma parte dessa fantasia, esgotante também ela mas que ao fim do dia deixa um amargo de boca, porque toca a realidade no extremo. Em cada desengano destes ficou sempre o sublime momento de uma imagem dela. Como que programada. Claro que sempre que a vias, fazias-te à estrada, com uma pedra no sapato, desprevenido é que nunca poderia ser! Saíste da pedra, entraste na pedra, contornaste-a e de repente tinhas lá gravado "home sweet home", para não voltares a abandoná-la. Agora é uma pedra requintada, ainda que inacessível a tudo o que não seja o que descrevi. Tem árvores, casas, mares e pessoas, é fantásticamente grande e incrivelmente cheia de vida. O caricato desta história é que ela ainda apareceu, com um pé de cabra, um corrosivo, um martelo anti depressivo, pronta a quebrar a pedra, desfazê-la, circundá-la e gritar-lhe bem alto que te deixasse sair. Ninguém saiu, ninguém a acolheu, ninguém mais entrou com medo de não voltar a sair, nem mesmo para te resgatar. Perante a sua imensa glória desafiante, perante tamanho poder, a pedra retorquiu "deixa-me abraçar-te", o seu grito de guerra e a perdição de quem ela já acolheu. Ela não o fez, ignorando o pérfido chamamento, e abraçou sim o seu destino que era outro, num passe de magia, na sua incrível agilidade, subiu à pedra, escalou-a e viu todo o horizonte do império que era dela, a partir desse momento, desse tão importante e único momento. O seu lamento não teve eco debaixo da pedra, mas alguém que lá estava lamentava não ter essa força de vontade. Tanto assim que depois de descer e ir conhecer o seu império, quando dela já não se via mais que uma ténue imagem, tu pediste permissão à eterna dúvida a tua imperadora e lá foste, guardado pela atração da pedra e os seus poderosos guardiões, ver o que ela tinha visto e não fizeste mais do que chorar em silêncio o que tinhas perdido, mas a eterna dúvida teve pena e nessa noite houve festa, que se prolongou até ao fim dos teus dias.


Sebastião Alba 3 

Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Sebastião Alba

quarta-feira, julho 14, 2004

Sebastião Alba 2 

Fim de poema

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,

em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba

terça-feira, julho 13, 2004

Sebastião Alba 1 - Alba é sublime!!!! 

O limite diáfano


Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.

Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.

Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

Sebastião Alba

Carta ao mê primo castuda no estrangêro, lá na suiça 

Maneli
Ê a modos que começo esta carta pelos assuntos importantes primo e ódepois falote na mulheri e nessas coisas assim. As uvas estano na saben a nada. Tâ comuvas passas primo. Passam-te na garganta e parece que deste um bêjo de lingua à Ti Alice. Olha que quando a rebarbadora na quer funcionar peço-lhe para lamber os capôts dos tratoris e a tinta velha salta qué uma beleza, nem é preciso polir a seguir nêm nada. Ainda hei de experimentar pedir-lhe para tosquiar as ovelhas a ver se funciona. O pior é ver a velha depois a cuspir bolas de pelo. A lina tá dando menos lêti, na sei sé da ração mas sisto assim continua troco-a e se à troca dere a Gertrudes talvez ainda compre uma parelha de bois pró arado. Os canitos aquilo andam todo o dia, todo o dia emparelhados uns nos outros. Inté me fazem lembrar quando tu e eu fomos à tropa poçaras. Belos tempos esses na eram? Tinha era menos barriga, mas fora isso éram tempos dos bons. Lembras-te daquelas catraias que nos puseram uns cravos nas G3? ahn? a gente soube agradecer ahn primo? aquilo é que foi, mas tamém na precisavas de lhes apontar a G3 enquanto lhes agradeciamos mas sempre foste assim para o abrutalhado.
Agora que tás aí na Suiça e vás voltar engenhêro dáva-me um jêtão se troussesses de volta as trusses que temprestei por causa do frio. É que depois do verão costuma vir o inverno e a Ti alice já tem trabalho que chegue cus polimentos pra lhe tar a pedir para me fazer mais um par de trusses, além disso tá vendo menos bem que de vez em quando dou-lhe umas joelhadas, prá manter na linha é que já me lixou dois cilindros da 504 num polimento mal dado. Ficaram como os mês rins cando a Gertrudes anda mais contente. Se lá dentro das trusses que temprestei vierem os restos das unhas que ê cortê no último Verão, melhor ainda, nâ tenho nenhuma faca afiada e aquele quêjo dovêlha que levo pró campo é mais duro cas moedas de 2 êros que tamandei pelo Natal. Alembras-te? ficaste com três galos na testa parcias um tricórnio vesgo.
A minha Gertrudes pediu-me que lhe tragas uns tobleronos, diz cus triangules de chocolate a modos que são mais fáceis dengolire porque são como que pontiagudos e se os amandas prá goela de bico aquilo entra de esquina. Comece a percebere porquéque na estrada lá prá aldeia os sinais de trânsito que ainda lá estão são ou redondos ou hexacoisos. A mulher tá cada vez mais aluada, agora deu-lhe para fazer bifes só com uma coisa que é a modos que de soja e suja os pratos à mesma mas na tem gosto nenhum. O qué que tu comes aí na suiçolandia primo? comes teutonas? ouvi dizer quisso é só quêjo mas fundido ou com buraques. Lembra-me a Gertrudes. Porra da mulher parece que tá em todo o lado. A mim tras-me um daqueles canivetes que têm tudo lá dentro, isso é uma grande invenção ahn primo? esses gajos apesar de suiços nã sandes parvos nenhuns ah pois não. Eles nem precisam de deixar crescer a unha do dedo mindinho.
Olha lá tu agora qués engenhêro tás a pensar fazer o quê da vida catano? o tê pai tá farto de se queixar a dizer que és engenhêro e tal e coiso mas trabalhar é que nada. Tamém acho que já é tempo ó Maneli, porra vem-me ajudar a arrancar os pupinos da terra e a dar de comer aos bovinos, pensas que é fácil esta vida? mas um gajo tem de trabahar pra comere. Ê tamém gostava de brincar ós engenhêros ou aos médicos como faziamos ca albertina antes dela deixar crescer o bigode, primo, mas ódepois quem é que cuidava aqui da herdade dos torresmos?
Sainda tiveres a olhar, ê agora passo más tempo na tasca do chico que em casa, a bem dizeri o gajo é mais bonito ca gertrudes e tem lá uns caracoles que a modos que vêm da austraulia, bem aquilo demora a chegar cá cus biches têm de fazer uma grande viagem e na china ficam logo algus 30 mas é mesmo bom catano. Atã depois da soja aquilo com um copo do tintolas feito pelo chico, pra mim é como amandar-me a uns bifásios de bufalo.
Olha se ainda não saiste trás-me a pinga aí do sítio mas sem ser em garrafas triangulares ou a outra manda-se a isso sem abrir.
O tê primo genito Anibal

P.S.D. Sabes aquele gajo da brihantina que satirou à prima albertina quando veio cá caçar à herdade dos torresmos e que cuando ela baixou as ceroulas meteu o cano da espingarda na boca e tivémos de lho arrancar a modos que à bofatada? na ficou nosso primo mas é nosso primero. Sê soubesse tinha-o deixado engatilhar a arma. Tu até querias deixá-lo na altura mas ê tinha uma camisa só há 8 dias e ia-me sujar aquilo tudo.

segunda-feira, julho 12, 2004

Puedo escribir los versos mas tristes - Pablo Neruda fazia hoje 100 anos. 

Puedo escribir los versos mas tristes esta noche.
Escribir por ejemplo: "La noche esta estrellada,
y tiritan, azules, los astros a lo lejos".
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos mas tristes esta noche.
...Yo la quise, y a veces ella tambien me quiso.
En las noches como esta la tuve en mis brazos,
la bese tantas veces, bajo el cielo infinito.
Ella me quiso. A veces yo tambien la queria
Como no haber amado sus grandes ojos fijos?
Puedo escribir los versos mas tristes esta noche.
...Pensar que no la tengo...sentir que la he querido!
oir la noche inmensa, mas inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como el rocio al pasto;
que importa que el amor no pueda aguardarla,
la noche esta estrellada y, ella esta conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido,
como para acercarla, mi mirada la busca;
mi corazon la busca, y ella no esta conmigo.
La misma noche,
que hace blanquear los mismos arboles.
Nosotros los de entonces, ya no somos los mismos,
Ya no la quiero, es cierto; pero cuanto la quise...!
Mi voz buscaba el viento para tocar su oido.
de otro...sera de otro...! Como antes de mis besos!
su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos,
Ya no la quiero es cierto, pero talvez la quiero:
es tan corto el amor, y tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque este sea el ulitmo dolor que ella me cause,
y sean estos los ultimos versos que yo escribo.

Pablo Neruda

Uma Paixão - Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares) 

Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

A inexorável passagem do tempo 

Sexta à noite no frenesim das batidas fortes da música de Verão, descobri um imenso gap geracional. O grave é que era entre mim e os outros todos e o avô era eu... mas não me rendo, isso é que era bom! esta sexta continuarei a abraçar a diversão, a dentadura não ficará no copo! só que vou trocar a noite pela loucura das tardes no jardim da estrela. Asdrubal, leva as cartas e o tabuleiro de xadrez que eu levo o set de pelota basca. Atenção às 9 tenho de voltar para casa.

sexta-feira, julho 09, 2004

Conceitos 

Formas, puras, rectilíneas, curvilíneas, amedontradas
Tons de várias cores diferentes, quentes, frias, saborosas
em cada espaço um navio que não cabe
um olhar que se fermenta em cada momento como o vinho que bebo
como no dia em que amanheço, e encontro em cada espaço o tal navio
andou mais meia légua mas ainda cabe nesse mesmo espaço
Faz-me lembrar em cada passagem que faço
o sorver da vida verdadeira, incólume, arrastada pelo vento
que a cada dia faz tudo para vir ao de cima
e as formas essas, ficam, sensuais, distantes, desvanecendo-se
desencontram-se como em cada outro espaço já sem navio

Em tempos foram imensas e nem por isso menos vãs
arrebatadas ao destino por um qualquer sonhador
em cada momento desses ficava eu em frente da janela
o navio já não estava
o momento nem por isso era menos importante
estava o espaço vazio, infinito
condensado em mil outros conceitos
um barco mais pequeno, o pôr do sol, um bando de gaivotas
curiosamente não consigo definir o espaço fora
mas vejo-o repleto de conceitos

Good ol´wine 

O vinho é uma paixão que não acaba nunca. Pelo menos hoje de manhã ainda a sinto!

quarta-feira, julho 07, 2004

Síncope 

Descobri que te quero
e que te perco
sem te ter tido
que desespero entre lençois
desisto sem ter partido
sem sequer ter naufragado

O que mais faço?
um tanto ou quanto audaz
um forte abraço consentido
pueril ineficaz e ingénuo
ténue como a minha própria natureza
morro na praia pela incerteza

Não ouso estender a mão, senão a parte de fora
para que sintas o seu calor sem a desforra
sem tremer por dentro
sem o contratempo de um suor frio
com o tempero de cada beijo
que nem te dou e não recebo

Perco-me na noite
que fica abandonada
vagueio absorto na névoa de um dia cinzento
ciumento numa noite clara
avesso a sentimentos inócuos
escondendo-me na bruma

Toco-te na minha própria imaginação
esqueço-me dentro de ti
em cada noite em que te espero
falta-me o esquecimento
a bravura da fatalidade
ou aquela doce frivolidade

mas quero-te

mordo tudo e alguma coisa para te ter
detesto a tela muda e sem vida
mas pinto em cada momento a visita que me fazes
na alma, branca, fria e às vezes nua
é ridículo
descobri


Felicidade por "um" poeta brasileiro  

A felicidade não está em viver, mas em saber viver.
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, julho 06, 2004

Por Sophia 

Omito o título que Sophia lhe deu porque não o quero aceitar por ser demasiado duro, mas adivinha-se nas palavras inebriantes que ela nos deixa:

"Eis que morrestes - agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim
- O olhar não atravessa esta distância -
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva.
Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo.
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e incerteza.
Aqui eu escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil

Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça
A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna.

E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado.
Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e do meu canto."

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

segunda-feira, julho 05, 2004

Pessoa num indescritível Álvaro de Campos, vale a pena ler 

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos

No sé porque no la locura 

Esta es mia
La tuya esta alli, acostada con el tiempo
el duro tiempo de la locura
el amor tierno de quien tiembla
por algo que nunca tendrá
una paz o la misma locura
no se... o el amor
a lo mejor tu misma te desplomarás
o yo, desnudo en lo que tu crees
pero la locura seguirá su camino
dura, fria y reiendose de quien sufre
por eso te digo que esta es mi locura
no me la puedes quitar
no me la puedes hacer olvidar o perder
ni sufrir
no se porque
pero un momento en la vida contigo son mil momentos
y son mil tormentos si no estas
El elogio de la locura nunca está de más
Como nos dejó Erasmo

"la locura merece ser elogiada cuando la razón, esa razón que tanto enorgullece al Occidente, se rompe los dientes contra una realidad que no se deja ni se dejará atrapar jamás por las frías armas de la lógica, la ciencia pura y la tecnología."
Periódico La República, París, 19 de febrero de 1982



Menos ais 

Objectivo cumprido, houve menos ais desta vez mas a boca sabe-me a Moussaka ou a Feta... sinto que fomos um deipnon helénico.

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